Daniel Japor Garcia é um advogado carioca que também leva no currículo uma grande experiência como guia de viagens em expedições de busca à Aurora Boreal.


O mais recente trabalho de Daniel como “caçador da aurora boreal” foi prestando consultoria a uma expedição com a equipe do Planeta Extremo cujas imagens foram transmitidas pelo Fantástico há alguma semanas.

Muita gente, inclusive eu, ficou bastante curiosa para saber mais sobre esse fantástico fenômeno. Entrei em contato com o Daniel que também é o autor do blog Aurora Boreal no Ártico e ele aceitou, gentilmente, responder algumas perguntas para o Eu Vou de Mochila, que você pode conferir logo abaixo.



Eu Vou de Mochila: De onde surgiu a paixão pela Aurora Boreal?

Daniel: A paixão pela a Aurora Boreal surgiu basicamente pelo meu fascínio por geografia. Quando criança um dos meus passatempos preferidos era pesquisar o Atlas ou brincar com meu Globo Terrestre. A principal curiosidade era pelos pontos extremos da terra, o que me fez sentir especial atração pelas regiões polares onde quase não há presença humana. Foi assim que soube da existência da Aurora Boreal, um fenômeno incrível e que só acontece onde poucos podem ver. Nessa época não havia internet, Google e ficava difícil saber mais detalhes sobre o assunto… Um pouco mais velho comecei a devorar os livros sobre os exploradores de grandes viagens Polares. Os livros sobre as viagens de Amundsen, Shackleton, Amyr Klink, entre outros, sempre foram os meus prediletos. Um livro em especial chamou muito a minha atenção para a aurora boreal que eu só conhecia superficialmente. Era sobre a maior corrida de trenó do mundo, onde os participantes enfrentam o frio que chega a 40º negativos, por semanas, para percorrer cerca de 1200 km sobre o Rio Yukon congelado, de Whitehorse no Canadá até o Alaska. O Autor, um dos participantes da corrida, dedicou boa parte do livro para falar do sentimento de assombro que tinha ao viajar com seu trenó na companhia das luzes da aurora boreal. O relato daquele homem em seu trenó, viajando em paz e com o céu cheio de luzes dançando me tocou profundamente, percebi que a aurora boreal se tornava algo que eu precisava ver de qualquer maneira, nem que fosse uma vez na vida. A partir daí comecei a pesquisar e me interessar profundamente pelo assunto até poder, enfim, ir sozinho para o Ártico.


Eu Vou de Mochila: Você conseguiria descrever em palavras a emoção da primeira vez em que presenciou a Aurora Boreal?

Daniel: É muito difícil, mas o momento em si foi inesquecível… Lembro que estava me sentindo meio maluco por estar ali sozinho olhando pro céu, no frio, longe de casa e com sérias dúvidas se veria alguma coisa. De repente, vi algo embaçado sobre o horizonte e essa mancha começou a ficar cada vez mais viva, acendendo, até formar uma forte luz verde sobre as árvores distantes. Ficou tão forte que parecia um incêndio ao longe, só que era um incêndio verde, fluorescente, era a aurora boreal surgindo. A tremedeira foi geral e não era de frio. A forte descarga de adrenalina faz você se desligar de tudo, se sentir um privilegiado. O sentimento é de que está em contato direto com o espaço sideral, com a natureza divina, o cosmos inexplicável, sem sair da Terra. Naquela noite a Aurora durou uma hora e meia, com diversas formas e eu fiquei ali de queixo caído, parecendo uma criança. Voltei para o Hotel tremendo de emoção, só consegui dormir muitas horas depois, exausto, no dia seguinte…


Eu Vou de Mochila: Qual a parte mais difícil em uma expedição em busca da Aurora Boreal?

Daniel: Quando você não mora no local e tem um determinado número de dias para ver a aurora boreal, não pode se dar ao luxo de esperar a situação perfeita, ou seja, o céu estrelado e a forte atividade. Além disso, a cidade que eu normalmente vou, Tromso, é muito grande e cheia de luzes que atrapalham a visualização do fenômeno. Sendo assim você precisa literalmente caçar a Aurora, se deslocar para lugares ermos, escuros, longe das luzes dos postes, etc… Faço pesquisa sobre a cobertura de nuvens daquele dia, o grau de atividade magnética, tento descobrir onde o tempo estará mais aberto e me deslocar para aquele local. Parece simples mas é necessário ter um profundo conhecimento da região, das estradas e dirigir uma média de 80 km (ida e volta) por estradinhas de neve, sem acostamento, até achar o local perfeito e bem escuro.


Eu Vou de Mochila: Existe algum perrengue ou caso engraçado que aconteceu em uma das expedições que gostaria de contar?

Daniel: Perrengue tive poucos, fazemos a coisa da forma mais segura e confortável possível. Casos engraçados foram vários. Em minha penúltima expedição, viajei com a equipe do Planeta Extremo da Rede Globo. Estávamos na cidadela chamada Longyearbyen, no isolado arquipélago de Svalbard, lugar que possui enorme quantidade de ursos polares espalhados pela Ilha. Embora seja seguro ficar dentro da cidadela, é proibido sair do centrinho sem portar armas para defesa em caso de ataque dos ursos. Em um determinado dia, decidimos sair sem armas, só um pouco, para fazermos imagens das luzes de Longyearbyen ao longe. Paramos o furgão e ficamos ali no escuro … No fundo todos estavam um pouco receosos por causa dos ursos. Depois de alguns minutos o Repórter Clayton Conservani se afastou sorrateiramente do grupo sem ser visto e, de repente, começou a gritar ao longe, com toda sua força, que havia um urso enorme correndo em nossa direção… Frações de segundos depois o Clayton surgiu correndo à toda no escuro, esbaforido, berrando para nos abrigarmos no carro por que era sério… O coração de todos foi a mil, éramos 6 pessoas pegas de surpresa, correndo em desespero para o furgão, todos tentando entrar ao mesmo tempo por cima dos bancos, um sobre o outro com câmeras, mochilas, filmadoras. Quando, enfim, conseguimos fechar a porta ouvimos uma risadinha debochada. Era o Clayton dizendo que não tinha certeza e que poderia ser apenas uma rena… Assim, após uma chuva de impropérios contra a “brincadeira sem graça”, o coração voltou a bater com mais calma e as risadas duraram muito tempo… No dia seguinte nos vingamos do Clayton, amarramos os pés e as mãos do brincalhão e deixamos ele largado no frio, sob a neve que caía enquanto almoçávamos em uma cabana.


Eu Vou de Mochila: Quando será a próxima expedição e como podemos participar? É necessário algum conhecimento específico ou experiência?

Daniel: Minha próxima viagem ao Ártico em grupo irá ocorrer no fim de janeiro próximo e, talvez, haja um segundo grupo partindo em meados de fevereiro. Qualquer um pode participar, qualquer idade desde que tenha boa condição física, não é necessário ter qualquer experiência, fazemos a caçadas às luzes da aurora boreal da forma mais segura e confortável possível. Em caso de interesse estou à disposição para qualquer dúvida. Meus contatos estão no meu blog: Aurora Boreal no Ártico


Eu Vou de Mochila: Qual a dica que daria para quem gostaria de ir em busca da Aurora Boreal?

Daniel: A primeira coisa é dispor de tempo, não adianta ir até o norte para ficar 2, 3 dias. As chances do tempo fechar em toda a região são enormes e caso isso aconteça a pessoa não vê nada. Assim, o ideal é ficar ao menos de 5 a 7 dias no Ártico e, se possível, o auxílio de algum guia é muito importante. Como eu expliquei não basta chegar na cidade para a pessoa ver a aurora, é necessário fugir das luzes e de possíveis nuvens, conhecer bem a região e os principais pontos para ver a aurora com perfeição.





Agradeço muito à atenção dispensada pelo Daniel para o Eu Vou de Mochila.


Não deixe de segui-lo no twitter @danieljapor e visitar o blog do Daniel e ver os relatos das expedições já realizadas, informações sobre as próximas expedições e, claro, muitas fotos.

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